De acordo com estudo, jejum pode reduzir inflamações crônicas
23/08/2019 10:20

Nos últimos anos, o jejum intermitente se tornou uma das dietas mais populares entre as pessoas que querem perder peso rápido. Essa estratégia de emagrecimento também chamou a atenção de cientistas americanos, que resolveram estudá-la a fundo. Em um experimento com ratos, eles constataram que períodos longos sem alimentação levam à redução de uma célula imune relacionada à inflamação. Os autores do estudo, publicado na última edição da revista Cell, acreditam que os resultados podem contribuir para o desenvolvimento de estratégias terapêuticas preventivas para uma série de doenças.

A inflamação aguda é um processo imunológico que ajuda a combater infecções, mas a crônica pode ter sérias consequências para a saúde, incluindo doenças cardíacas, diabetes, câncer, esclerose múltipla e doenças inflamatórias intestinais. “Estudos mostraram que o jejum intermitente pode amenizar as doenças inflamatórias, mas não revelaram como. Nosso estudo foi feito porque queríamos saber o porquê disso”, conta ao Correio Miriam Merad, diretora do Instituto de Imunologia do Hospital Monte Sinai, nos Estados Unidos, e uma das autoras do estudo científico.

Para entender essa relação, Miriam Merad e sua equipe submeteram ratos a uma dieta de jejum intermitente durante algumas semanas. Os animais apresentaram diminuição da liberação, na circulação sanguínea, de células pró-inflamatórias chamadas monócitos. “São células imunes altamente inflamatórias que podem causar sérios danos ao tecido, e temos visto uma quantidade crescente delas na circulação sanguínea da população, como resultado de hábitos alimentares que os humanos adquiriram nos últimos séculos”, explica a pesquisadora.

Segundo os cientistas, outras investigações também mostraram que, durante os períodos de jejum, essas células entraram em “modo de sono” e ficaram menos inflamatórias que monócitos encontrados em animais que se alimentaram normalmente. Para a equipe, todos esses dados apontam o jejum intermitente como uma boa estratégia de prevenção de enfermidades relacionadas à inflamação. “Considerando o amplo espectro de doenças causadas pela inflamação crônica e o crescente número de pacientes afetados por essas doenças, existe um enorme potencial em investigar os efeitos anti-inflamatórios do jejum”, ressalta Stefan Jordan, pesquisador do Departamento de Ciências Oncológicas do Hospital Monte Sinai e também autor do estudo.

Com base nos resultados do experimento com ratos, os pesquisadores americanos planejam seguir tentando decifrar os mecanismos moleculares pelos quais o jejum ameniza as doenças inflamatórias, o que, acreditam, poderá levar a novas estratégias terapêuticas. “Agora que entendemos o impacto da ingestão calórica no acúmulo de monócitos nos tecidos, podemos usar a dieta para reduzir o acúmulo dessas células em lesões inflamatórias, já que essas células demonstraram uma contribuição para a aterosclerose, diabetes etc.”, detalha Miriam Merad. “Vamos continuar a nossa busca, tentando entender como a dieta afeta as células do sistema imunológico. Queremos também entender esse mecanismo em relação a lesões do câncer”, completa.

Mais estudos

Werciley Júnior, infectologista e chefe da Comissão de Controle de Infecção do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, acredita que os dados do estudo americano são extremamente positivos, pois mostram um mecanismo que pode ser manipulado sem gerar danos às defesas do corpo. “Com esse tipo de pesquisa, sabemos que temos a capacidade de alterar a dieta e, com isso, modular as respostas de inflamação sem mexer no equilíbrio do sistema imune, algo extremamente importante para não causar outros problemas de saúde”, explica.

Para o médico, é necessário dar continuidade à investigação a fim de melhor entender possíveis nuances relacionadas a diferenças em cada organismo. “Precisamos, agora, ver se esse efeito se repete em indivíduos com perfis distintos. Se uma pessoa é obesa, por exemplo, os monócitos vão ser reduzidos da mesma forma que em uma pessoa mais magra? Pode ser que não, mas existe esse risco. Por isso, é necessário checar”, detalha o médico.

Palavra de especialista

Não é uma recomendação

“Já temos alguns estudos que mostram os benefícios do jejum intermitente,principalmente nesse aspecto de redução da inflamação. Vimos que ele melhora alguns parâmetros metabólicos. Mas é importante frisar que, quando temos um estudo experimental como esse, feito apenas em animais, ele não é o suficiente para gerar uma recomendação à população em geral. Isso é importante frisar, pois vivemos em um período de modismos, as pessoas acabam tendo uma proporção exagerada quando surge algo que parece tão promissor, como o jejum intermitente. É importante ressaltar também que esse tipo de dieta não é indicada para todas as pessoas, temos indivíduos que não conseguem passar tanto tempo sem comer. É algo muito individual, eu consigo passar o dia todo sem me alimentar, mas outras pessoas, não. Somente com mais estudos vamos entender melhor esses efeitos benéficos e como eles podem ser explorados da melhor forma na área médica.”, Maria Edna de Melo, endocrinologista da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional São Paulo (SBEM-SP).

Para saber mais

Alvo dos cientistas

Esse tipo de dieta tem vários tipos de janelas alimentares — períodos em que o indivíduo não pode comer nada —, mas a maioria dos programas defende limitar a ingestão de alimentos entre, no mínimo, 12 horas e, no máximo, 23 horas. Cientistas têm estudado os impactos desse regime em diferentes áreas.

Defensores do jejum intermitente ressaltam uma série de benefícios fisiológicos, como aceleramento do metabolismo, aumento da sensibilidade à insulina e regulação da pressão arterial. Vantagens relacionadas à saúde mental, como melhora da atenção e redução de sintomas de ansiedade e depressão, também são listadas. Especialistas ressaltam que, para que os resultados positivos sejam obtidos, é importante manter uma alimentação saudável e contar com orientação profissional.

Edição Site TV Assembleia

Fonte: Correio Brasiliense - Por Vilhena Soares
Imagem: Oleksandra Naumenko - Shutterstock
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